No último sábado, 10/04, eu e mais duas pessoas tomamos a decisão da fazer doações e trabalho voluntário em favor das pessoas atingidas pelas chuvas no bairro do Cubango, em Niterói. Reunimos roupas, alimentos, agua potável, roupas de cama e fomos até a quadra da escola de Samba Acadêmicos do Cubango.
O caminho seguido até lá, feito pela Noronha Torrezão, revelou estragos diversos, especialmente deslizamentos que, entre outras coisas, cobriram por completo o ponto de parada da linha circular 49. Funcionários da Prefeitura de Niterói retiravam barro das calçadas e alguns pontos ainda permaneciam de tal forma que era difícil andar pelas calçadas.
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Na e
scola de samba, a primeira surpresa positiva foi constatar que dezenas de outras pessoas tiveram a mesma iniciativa. O local tem servido como um ponto de coleta e distribuição de doações. Os voluntários, vários deles membros da própria comunidade, determinam o que enviar para as escolas públicas e outros locais onde estão dos desabrigados. A ajuda é muito bem vinda, especialmente os itens que mais fazem falta, como sabonetes, pomadas para assaduras e absorventes íntimos. Os alimentos tem sido suficientes para prover condições mínimas a todos os que estão dependendo dessa ajuda. Além das doações, braços são muito bem recebidos, pois há material para ser separado, organizado, segregado e entregue.
O Grêmio Recreativo, de tantas festas e comemorações, promove agora um verdadeiro carnaval de solidariedade. Donativos dividem o espaço com as lembranças do passado, e o estandarte da escola bilha em meio a pessoas incansáveis em um constante ir e vir.
O segundo ponto visitado foi a Escola Estadual Doutor Memória, onde estão algumas das famílias desabrigadas. Lá, encontramos moradores e voluntários da Arquidiocese de Niterói organizando donativos e provendo o necessário para cada um. Uma comunidade que, mesmo depois de perder muito do que tinha, ainda colaborava com outras vítimas das chuvas. De lá, partiram donativos para vítimas abrigadas em Itaúna, no município de São Gonçalo. Era visível o número de crianças ali presentes. As mais novas pareciam alheias a tudo, e brincavam felizes apesar das condições em que se encontravam.
A última parada foi uma visita ao Morro do Bumba, onde ocorreu o mais grave deslizamento de Niterói. A comunidade tem sido atendida por um grande contingente da Defesa Civil. Há retroescavadeiras, ambulâncias, viaturas da polícia. A cada hora, diminui a probabilidade serem encontrados sobreviventes. Em breve, a busca será somente pelos corpos que deverão ser identificados por familiares.
A garagem de uma empresa de transporte rodoviário serve como base para a atuação do governo. Há também funcionários públicos e assistentes sociais no local. A imprensa está presente com fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Há voluntários de diversas igrejas, unidos no atendimento a desabrigados e feridos.
A visão é impressionante. Há uma enorme vala de cor preta em meio a residências, que toma parte considerável do morro. Não há como acreditar, num primeiro momento, que ali havia casas, uma creche municipal, uma pizzaria e uma escola técnica. O preto da terra não denuncia a urbanização que ali havia.
O que mais choca em tudo isso é saber que aquela localidade já havia sido alvo de estudos, do pleno conhecimento da Prefeitura de Niterói. Há pelo menos cinco anos, já se sabia de riscos associados à ocupação da área, e não houve qualquer esforço da Prefeitura no sentido de poupar aquelas vidas da dor e das perdas que hoje são sentidas. Nesse exato momento, resta terra negra, poeira e mortes, consequentes de uma omissão que revela um certo descaso pela vida humana.
Ontem, enquanto estávamos lá, o governador do Rio, Sergio Cabral, também visitava o local. Talvez fosse salutar que o Prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, também fizesse uma visita. Afinal de contas, há muitos anos ele governa a cidade, e por essa razão o seu desconhecimento sobre a história e os riscos daquele local pode ser considerado inaceitável.



Elaine, já haviam dois dias que não conseguia sair de casa quando na quinta feira dia 08 me desloquei da Região Oceânica para ir ao trabalho. Impedida de ir pelos acessos Cachoeira, Garganta e Ititioca, acessamos, eu e meu marido, a RJ104. Todo o percurso até a estrada é de destruição. Não ha um momento em que não se vê deslizamentos.
A estrada tem trechos em que o asfalto já não existe, e em outros em que o barranco vai próximo a passagem do carro. A paisagem é de casas penduradas, grandes veios abertos nos morros.
Desolador.
Chegando ao trabalho, depois de um sério stress devido a situação na cidade, e também, pelo fato de sentir que o meu deslocamento era uma temeridade, percebi realmente que situações como essa afetam de forma diversa os cidadãos. Como falou Jabor ha a chuva chata e a dramática. Para aqueles que estiveram apenas impedidos de pegar o ônibus, mas que horas depois puderam acessar o metrô, a chuva passou…
A mensagem de episódio é que tão problemático quanto a ausência de políticas públicas e de um poder público eficiente, está o total descomprometimento do cidadão comum, com a cidade- não ha cidade partida, a cidade de todos- e com o outro.
Comentário por Tatiana — abril 12, 2010 @ 11:30 am |