Tomo a liberdade de reproduzir abaixo matéria publicada pelo jornal de bairro do Globo online. Muito relevante para a discussão da questão das chuvas no Rio:
Comitê de Favelas de Niterói exige retratação pública das autoridades
Esta manhã, o GLOBO-Niterói recebeu a seguinte nota, redigida pelo Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói, com o apoio das seguintes entidades, instituições e pessoas: Associação de Moradores do Morro do Estado; Associação de Moradores do Morro da Chácara; Sindsprev-RJ; Sepe-Niterói; Sintuff; Diretório Central dos Estudantes da UFF; vereador Renatinho (PSOL); deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL); Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk); Movimento Direito pra Quem; Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares. Abaixo, a nota na íntegra:
“Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público. A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infraestrutura que poderiam salvar vidas. As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte. Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.
Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de Obras, José Roberto Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.
Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor. Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.
Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas. Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.”