Que período infeliz, esse que a imprensa nacional vive. A sensação mais forte que tenho é a de que falta assunto a ser tratado nos jornais. O caso Isabella, por exemplo, foi alçado ao status de um “big brother na vida real”, tamanha a exposição e o sensacionalismo a ele conferido. O recente escândalo do (ex?) jogador Ronaldo Fenômeno se transformou numa novela de relacionamentos desfeitos e projeção “merchandisica” do travesti que protagonizou o episódio. Assim como esses, outros assuntos tem sido repetidos à exaustão, ocupando todos os jornais de todas as emissoras e editoras do mercado.
Em relação ao caso da menina, o que causa tamanha comoção? Seria a morte de uma criança? Certamente não. O Brasil, infelizmente, tem estatísticas relevantes de casos de violência infantil, muitas vezes realizada pelos próprios pais das vítimas. Talvez toda a repercussão se dê pelo fato dos principais suspeitos do assassinato serem, além de pai e madrasta da criança, cidadãos instruídos da classe média paulistana. Enfim, “gente de bem”. Essa visão explicitaria, novamente, a questão do preconceito social no país: as mortes na periferia e no interior não merecem tanto foco quanto um crime ocorrido no mundo das pessoas “centrais”…
Mas não me parece ser isso: insisto que é sinal da exaustão temporária da nossa imprensa. As mesmas coisas são repetidas de forma mecânica nos jornais matutinos, vespertinos e noturnos. Pautas são montadas para que, em todo um telejornal, seja reafirmado que não houve nenhuma novidade desde a edição anterior.
Essa aparente deficiência de pauta pode ser, na verdade, reflexo de decisões editoriais que se concentram naquilo que sabem que “dá IBOPE“. Mais do mesmo, para garantir o prezado anunciante. Nada contra. Mas, para o bem da imprensa e da sociedade, seria de muito bom grado reservar uma pequena fração dos noticiários para temas emergentes. A diversidade enriquece e evita que se formem arquétipos sobre o que somos ou deixamos de ser.
Enquanto todos se concentrarem naquilo que já foi explorado à exaustão, sobre o que já não há mais nada a dizer, viveremos essa realizade: com a palavra, os mudos.